Tipografia Experimental

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Sabe quando você vê um trabalho utilizando fontes onde o conteúdo em si nem mesmo é o mais importante da peça? Quando temos casos assim, onde o mais importante é a plástica, o traço do designer, é que estamos lidando com um trabalho de tipografia experimental.

O que é mesmo Tipografia Experimental?

Procurando um pouco pela internet, podemos encontrar algo sobre o assunto. A Wikipédia vai definir a tipografia experimental de uma forma tão sucinta como superficial: uma abordagem não convencional e mais artística ao desenho do tipo. Para melhorar um pouco nossa definição, podemos utilizar a definição do tipógrafo e idealizador da revista Tupigrafia, Cláudio Rocha:

 “Tipografia experimental, de forma geral, está ligada ao que se costuma chamar design de autor, em que a visão e o estilo de um designer são expressos em seu trabalho amarrados por uma proposta mais ou menos reconhecível …

O experimentalismo pode seguir em várias direções. A mistura de estilos, distorções óticas, caligrafias inusitadas e todo tipo de variações geométricas são alguns dos caminhos.” (ROCHA, Cláudio. Projeto tipográfico: análise e produção de fontes digitais.)

Assim, quando uma tipografia é criada como expressão de seu designer, quando ela é criada menos para expressar seu conteúdo e mais sua forma, temos uma tipografia experimental. Sobre materiais, formas e suportes, eles são infinitos e dependem somente da imaginação do seu criador.

De onde veio essa ideia?

De uma forma geral, podemos considerar que a tipografia experimental, como obra autoral, se inicial no início do século XX, com os movimentos artísticos de vanguarda. Até o final do século XIX, os avanços na tipografia eram mais estruturais e buscavam sempre trabalhar a legibilidade do tipo, a economia de tinta ou melhores resultados na impressão de caracteres. No início da década de 1910 profundas mudanças na sociedade europeia propicia um cenário perfeito para novas interpretações da linguagem visual.

Logotipo da Kelmscott Press
Mesmo as páginas extremamente ornadas de William Morris do final do século XIX, não tinham como intenção o design de autor.

 

Os movimentos vanguardistas do início do século XX foram os primeiros a explorar essas novas possibilidade na tipografia. Podemos citar alguns movimentos importantes nessa busca de novas formas de diagrama e de explorar a forma da letras: o dadaísmo, o futurismo, o cubismo e o construtivismo russo, entre outros.

Pelos dadaístas, herdamos poemas diagramados com quebra do grid rígido e o posicionamento intuitivo de elementos em sua composição.   Entre os grande nomes desta escola, Tristan Tzara e Hugo Ball. Pelo cubismo,a fase sintética acabou explorando diferentes materiais em suas colagens, a tipografia acabava também sendo lançada de forma quase aleatória e pouco descontraída em sua forma. Aqui, podemos citar Juan Gris e Pablo Picasso. O Futurismo e o Construtivismo continuaram essa revolução buscando explorar não somente a diagramação, mas também o próprio tipo. Pelo futurismo, Filippo Marinetti; e pelo construtivimo, Alexander Rodchenko; são alguns dos principais nomes.

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Mudando da linguagem para a tecnologia, podemos considerar dois momentos cruciais para a tipografia experimental. O primeiro deles é a febre do néon mais ou menos na mesma época do dadaísmo, mas lá pelas bandas dos EUA.

O néon foi inventado pelo francês Georges Claude. Nesta tecnologia, as moléculas de gás néon são agitadas por eletricidade e acabam gerando luz. Sua demonstração foi realizada primeiramente em 1910, mas seu sucesso se deu em 1915 quando Earle Anthony comprou dois sinais para sua concessionária de carros Packard por cerca de US$ 24000.

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Display da Packard em 1915. O início da febre do néon. Por volta de 1930, a indústria de sinais a néon estava em pleno crescimento.

 

O sucesso foi imediato e de uma hora para outra todos queriam ter as placas de seu estabelecimento nessa tecnologia. A descoberta científica mudou a percepção geral do público pela tipografia. As limitações do material (era difícil manipular vidro aquecido, sem contar com os riscos de quebra) fizeram com que as fontes fossem predominantemente com curvas suaves e cursivas, uma vez que o própria ideia do tubo contínuo se assemelha com a do traço contínuo.

Times Square, 1954
Times Square em 1954

 

O segundo grande avanço tecnológico foi a mudança da forma de composição tipográfica de quente para frio. A tecnologia das máquinas Linotipo, apesar de ter representado um grande avanço em termos de velocidade de composição, permitia pouca exploração de variedades.

Com a fotocomposição, onde um disco com o negativo de caracteres recebia luz e sensibilizava uma folha de papel fotossensível, não só foi possível aumentar ainda mais a velocidade de composição, mas também naquele momento era possível se explorar melhor os diferentes tamanhos (bastava que a distância para o papel e o foco fosse alterado) e também as possibilidades de distorção dos caracteres.

Exemplos de distorções utilizando o processo de fotocomposição.
A fotocomposição abriu novas possibilidades para a composição de tipos com efeitos especiais que eram antes impossíveis usando tipos de chumbo. (Clair, 2005)

 

Mas… é onde a coisa começa de verdade?

O cenário para a exploração tipográfica realmente estava pronto anos 1960. A geração dos baby boomers havia crescido e agora atacava a sociedade, assumindo um papel contestador e provocativo. Com tantas possibilidades de linguagem, tecnológicas e de composição, o campo tipográfico estava aberto à exploração.

Um dos primeiros a explorar tais novas possibilidades foi Seymour Chwast. Chwast criava fontes explorando elementos contestadores como o sapatos plataforma e as calças boca de sino em seus tipos.

Artone type specimen.
Com fontes como a Artone (1968), Seymour Chwast mostrava seu estilo e senso de humor.

 

Mais ou menos na mesma pegada, o psicodelismo também explorou bastante a percepção da forma tipográfica. Explorando composições com muitas matizes saturadas, com traços orgânicos, os cartazes dessa época criavam uma espécie de releitura da Art Nouveau, mas com maior experimentalismo. Entre os principais designers da época, podemos citar Wes Wilson e Victor Moscoso.

Poster Neon Rose de Victor Moscoso
Neon Rose (Victor Moscoso, 1967)

 

A tipografia experimental na era da informática

A tipografia na era de Macs e PCs nasce experimental por definição. Mesmo sem poder de processamento para composição em alta resolução, os designers começaram a explorar as possibilidades do novo meio especialmente pela introdução de editores WYSIWYG, pela rapidez e barateamento da composição.

Neste ímpeto, a revista Émigré foi uma das pioneiras no uso do computador e na exploração deste meio. A type designer Zuzana Licko começou a criar fontes em baixa resolução para a nova tecnologia.

 

Página interna da revista Émigré
Página interna da revista. Em sua segunda edição, a revista já era diagramada em computador.

 

A família Emperor era construída em um grid de 4×10, hastes de apenas um pixel e sua altura mudava com o acréscimo somente na altura. Apesar de serem fontes para leitura em revista, as fontes carregavam o que Cláudio Rocha cita de “visão e o estilo de um designer”, dando a revista Émigré, uma estética própria e referencial.

Notem a forma que a fonte aumenta sua altura sem mudar sua largura.

 

A tendência a explorar o meio computacional para o design gráfico e tipográfico desde então só aumentou e foi justamente nesse momento que a parceria entre Apple e a recém criada Adobe para implantar o formato PostScript – e o devido contra-ataque da Microsoft, acaba por gerar o boom tipográfico e a criação de tipos tomou importância e dimensões impensáveis.

 Alguns artistas e obras importantes dos anos 80 e 90

 Neville Brody

O trabalho de Neville Brody ganha notoriedade na década de 1980. Neville é por alguns considerado o criador da experimentação tipográfica. Trabalhando para a revista inglesa The Face, ele inicia suas experimentações ao alterar tipos para trabalhar a hierarquização da página.

Capa para a Revista The Face
Capa para a Revista The Face (Neville Brody, 1985)

 

Para a revista The Face, Brody criou a família de tipos Typeface e, a partir de então, com a ajuda da tecnologia digital, tornou-se também um renomado type designer. Entre suas muitas criações estão as famílias Blur, Industria, World e FF Dirt.

fuse magazine
Trabalho de Brody para a revista Fuse

Max Kisman

Nascido em 1953, Max Kisman é considerado por muitos a ‘ovelha negra’ do design gráfico holandês.

Trabalhando com ilustração, tipografia, animação e impressos, Kisman fugia do racionalismo típico da De Stijl e acabou desenvolvendo uma linguagem gráfica bastante particular utilizando ironia, simplicidade e com forte poder de comunicação de suas composições.

Selo
A ironia e simplicidade pode ser observada neste selo criado por Max Kisman em 2001

 

Entre seus principais trabalhos experimentais, podemos citar We love your font, de 1986, um alfabeto composto por pequenos objetos achados ao acaso.

Outro trabalho extremamente experimental de Max Kisman e que merece ser citado aqui é o de construção da fonte Fudoni, uma mistura das fontes Futura e Bodoni. Uma junção de duas fontes icônicas de seus movimentos (a primeira, geométrica e a segunda, moderna) que acabam gerando uma fontes totalmente pós-moderna.

Type Specimen da Fudoni
Type Specimen da Fudoni

 

David Carson

Aceitando ou negando, é impossível não se envolver no debate sobre o trabalho de David Carson. Esse surfista que entrou no mundo do design após um workshop de duas semanas, foi um dos mais influentes da década de 90, ditando regras sobre o layout de revistas, especialmente as de surf de toda a década de 90.

O tipógrafo português Paulo Heitlinger, classifica sua forma de trabalhar com a tipografia como despreocupada, mas ao mesmo tempo, tais arranjos despreocupados nos trouxeram uma forma única de compor do texto e desconstruir a forma do caracteres e conceitos de legibilidade e leiturabilidade. Como ele mesmo afirmou no documentário Helvética: “Não confunda legibilidade com comunicação”.

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Cartaz de David Carson para a Aspen Design Conference

 

Falando nisso, é clássico o o caso em que, tentando buscar uma fonte interessante para uma entrevista com o cantor Bryan Ferry, David Carson acabou escolhendo uma fonte dingbat para sua composição. Segundo o próprio designer, a entrevista era tão entediante que as letras iam se embaralhando em sua mente, a escolha, então, foi assim feita para tentar demonstrar como ele se sentia ao ver aquele texto que pouco comunicava.

Ray Gun Magazine
A famosa página em dingbat para a revista Ray Gun, 1994.

O que está sendo feito agora?

O agora é muito grande e muito recente para se ter notícia e registro de tudo. Isso é óbvio. Entretanto, tentaremos citar aqui alguns movimentos que possuem um grande número de adeptos e grandes nomes na sua área de experimentação.

O primeiro deles, diz respeito a novos rumos da exploração da tipografia computacional. Se na época de Zuzana Licko o objetivo era explorar o desenho no novo meio, agora, principalmente com nomes como o de Erik van Blokland o objetivo desconstruir esses desenhos e gerar novas possibilidades pelo uso da programação.

A ideia de gerar fontes imprevisíveis vai totalmente contra a ideia funcionalista da tipografia invisível. Na fonte Beowolf, criada junto com Just Van Rossum na Letterror em 1990, os vetores de cada caractere tem um número absurdamente maior que os de uma fonte comum. Tais pontos são modificados a cada uso proporcionando uma fontes que, quando aplicada em impresso, é sempre impressa com algumas diferenças de desenho e que quando é aplicada em um vídeo, ganha vida e possui movimentação constante.

cartaz filme Capote
A fonte Beowolf Trixie sendo utilizada no cartaz do filme Capote, de 2005.

 

 

Aqui no Brasil, quem tem explorado bastante as possibilidades de uso da tipografia com programação em Processing e Python, é o jovem designer brasileiro Dimitre Lima. Seu trabalho explora como a programação interfere na forma buscando resultados pelo caos e pela experimentação.

Um dos seus principais trabalhos foi para a o VMB 2012 da MTV. Nessa instalação, a letra da música cantada era projetada no fundo do cenário e as formas sofriam influência das faixas sonoras, tal como um equalizador gráfico.

 

Videoinstalação de Dimitre Lima para o VMB 2012
Videoinstalação de Dimitre Lima para o VMB 2012. Clique na imagem para ver o vídeo

 

O trabalho de desenvolvimento de fontes de Dimitre também é bastante reconhecido, a sua fonte Arame acabou sendo usada na HUD do Homem de Ferro no filme The Avengers. Nada mal, heim?

Hud do Iron Man
A fonte Arame em ação

 

Mas só existe experimentação se for digital digital?

Não! Claro que não.

O desenho de caracteres é cada vez mais explorado. Tanto e de tal forma que fica até difícil definir correntes e regras. Um dos trabalhos mais admirados aqui pelo pessoal do blog é o da type designer brasileira Marina Chaccur. Um dos focos do trabalho desta designer é o estudo de contrastes invertidos. Como funciona isso? É simples de se entender. Deixe a gente explicar.

Em uma fonte cursiva, desenhada com uma pena copperplate, o contraste das hastes nasce da pressão que se emprega na escrita. Como não se pode gerar pressão nos movimentos ascendentes (o que poderia danificar a pena), o traço grosso é gerado nos movimentos descendentes.

Exemplo de escrita cursiva
Observe o “r” e note que a primeira haste (da esquerda para a direita) é fina, pois o movimento para desenhar a haste é de baixo para cima. Já a segunda haste, como o movimento é descendente, ela é mais grossa.

 

No caso do estudo da Marina Chaccur, o movimento simulado (não é mais um trabalho baseado em um instrumento e – sim – no desenho criado) é invertido. Os traços ascendentes são agora grossos e o inverso ocorre com os descendentes. O resultado, é ao mesmo tempo belo e intrigante.

Tipografia inversa de Marina Chaccur
No trabalho da Marina Chaccur, as orientações são inversas ao que é valido para a escrita cursiva.

 

E ainda tem mais material!

Como o Cláudio Rocha disse, a experimentação pode se dar pela distorção de formas através da programação em Python ou Processing (lembrar do Erik van Blokland), por desenhos inusitados (e daí temos a Marina Chaccur), mas também podemos explorar materiais.

Aqui, só podemos dizer que o céu nem é mais o limite. Tem-se explorado o uso de materiais diferentes para formas desde muito tempo e está longe de chegarmos ao limite disto.

Entre alguns exemplos, podemos citar o mestre Stefan Sagmeister com seu trabalho “trying to look good limits to my life”, de 2004.

Trying to Look Good Limits My Life
Tipografia produzida por elementos do mundo real produzido por Sagmesiter

 

Outro obra-prima de Sagmeister foi o pôster desenvolvido para a conferência da AIGA de 1999 em Detroit. Buscando novos materiais para criar o pôster da sua conferencia no encontro, Sagmeister cravou em sua própria pele os dizeres do cartazes e criou uma peça referencial do design pós-moderno.

Cartazes de Sagmeister
Duas obras de Sagmeister: a esquerda, poster para Lou Reed, Set the Twilight Reeling (1996) e a direita, cartaz para a Conferência AIGA de 1999

 

Como dissemos, a partir daí fica quase impossível listar todos os grande momentos. O que fazer? Para onde ir? Não há limites na experimentação tipográfica. Quer trabalhar explorando formas e materiais? A nossa dica é conhecer e experimentar. Trabalhos de Lettering, pela sua liberdade de formas são uma ótima porta de entrada.

Outros Exemplos:

 

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 Agradecimentos

Agradecemos ao Diego Maldonado pela ajuda com consultoria e revisão do texto.

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3 comentários sobre “Tipografia Experimental

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